Depressão pós-parto: contrariedade de sentimentos

A gravidez e o parto são momentos marcantes para uma mulher, não apenas pela transformação corporal pela qual ela passa, mas pela responsabilidade biológica em carregar em si uma vida e pela responsabilidade pós-parto com aquela vida e a expectativa em poder proporcionar um ambiente físico e emocional favorável ao desenvolvimento do bebê, que passa a integrar a família e a sociedade. As respostas emocionais aos momentos críticos de sua vida, sejam eles bons ou ruins, são respostas de adaptação, muitas vezes, marcadas pelo adoecimento emocional da pessoa, como fato efetivo da dificuldade em se manter estável nesse período.

 O primeiro mês após o parto é, talvez, o período no qual a mulher se encontra mais vulnerável emocionalmente. Nesse tempo o número de internações psiquiátricas é sete vezes maior do que a média de internações durante toda a gestação. Dois quadros comuns entre as mulheres que acabam de dar à luz é a “depressão pós-parto” (DPP) que atinge de 10 a 20% das parturientes e a “tristeza pós-parto” (blues pós-parto ou disforia puerperal) que acomete cerca de 50% das puérperas. São quadros bem distintos do ponto de vista de reações femininas, sendo que é mais comum o segundo caso [tristeza pós-parto], que é mais suave em seus sintomas e dura no máximo 5 semanas, não devendo evoluir para um quadro efetivo de depressão. Já a DPP é mais severa, merece um tratamento detalhado e uma atenção especial e pode instalar um quadro efetivo de depressão na mulher.

Podemos até achar estranho, pois se a gravidez é algo tão bonito e desejado, por que traz tantos riscos emocionais para a mulher? Isso ocorre justamente pela intensidade da experiência emocional vivida por ela, a qual nem sempre está suficientemente equilibrada e preparada emocionalmente para esse acontecimento em sua vida. Muitas vezes, mesmo mulheres com boa organização psíquica podem passar por isso.

A DPP geralmente tem início na primeira semana pós-parto, podendo ocorrer até dois anos após o parto ter feito. Alguns fatores podem favorecer o início dessa enfermidade, destacando-se:

 – Mulheres com sintomas depressivos durante ou antes da gestação;

– Com histórico de transtornos afetivos, ou seja, que já tenham problemas psicológicos antes mesmo da gestação ou que não aceitem a gravidez de forma positiva;

– Gravidez rejeitada e gestação em que houve problemas sérios na vida pessoal podem provocar uma associação do problema com o bebê;

– Mulheres que sofrem de TPM (tensão pré-menstrual), que passaram por problemas de infertilidade ou que sofreram dificuldades na gestação;

– Submetidas à cesariana e com complicações no parto;

– Mães solteiras;

– Vítimas de carência social;

– Mulheres que perderam pessoas importantes, que passaram por aborto ou ainda quando seu bebê possui anomalias ou permanece na UTI e

– Que vivem em desarmonia conjugal.

 O sintomas que se manifestam na mulher com depressão pós-parto, os quais podem ser percebidos no convívio familiar e social, são:

 – Irritabilidade, mudanças bruscas de humor, indisposição, doenças psicossomáticas, tristeza profunda;

– Sintomas físicos: alterações gastrointestinais, ressecamento da boca, dor de cabeça e insônia;

– Desinteresse pelas atividades do dia a dia, falta de interesse no cuidado pessoal, sensação de incapacidade para cuidar do bebê e até mesmo de desinteresse por ele: a mãe pode deixar de alimentar e dispensar os cuidados básicos ao bebê. E em casos mais graves, ela pode ser tomada por pensamentos suicidas e homicidas em relação a ele.

Para ser considerada depressão pós-parto é necessário que ela ocorra até o sexto mês após o parto. Essa doença é prolongada e normalmente necessita de medicamento e acompanhamento psiquiátrico para ser controlada e dar melhor qualidade de vida e até mesmo segurança para a mulher, o bebê e a família.

Não há um trabalho preventivo para a DPP, mas o pré-natal é importante para orientar a mãe com relação às suas necessidades e também com relação às do bebê, bem como para prevenir esse mal, porque reduz o medo, a expectativa e a ansiedade da mãe nesta fase por meio de informações e do acompanhamento recebido.

A família tem um papel importante para que a mulher seja cuidada não só durante a gravidez, mas após o parto. Por vezes, a família não dá tanta importância ao fato [DPP], achando que isso é próprio da fase, que logo vai passar, que é “coisa de mãe”. O risco não é apenas com relação à mãe, mas também com relação à qualidade da saúde mental do recém-nascido, pois ela passa a destinar sentimentos negativos ao filho, maltratá-lo e até mesmo a ter vontade de eliminar a vida da criança. Isso não é apenas maldade ou falta de Deus. Trata-se, sim, de um quadro que requer atenção redobrada, pois ao contrário do que o socialmente desejado, nem sempre a reação da mulher é positiva e sua estrutura emocional preparada para esse momento. Sentimentos de incompetência, incapacidade, limitação nos papéis que a mulher ocupa na sociedade, na família, no casamento podem estar presentes e despertarem um processo depressivo. De forma geral, a mulher sente que perdeu o lugar de filha sem que tenha ainda segurança no papel de mãe; que o corpo está irreconhecível, pois se já não é mais de uma grávida, tampouco retomou sua forma original; e que entre ela e o marido encontra-se um terceiro elemento. O bebê emerge como um outro ser humano aos olhos desta mãe e precisa encontrar um espaço dentro desta configuração anterior (casal) de forma a deixar preservada a sexualidade dos pais.

A DPP é severa e merece, sim, um acompanhamento psicológico e psiquiátrico, especialmente pela gravidade dos sintomas apresentados pela mãe, pois, muitas vezes, o uso de medicação e acompanhamento psicológico serão necessários. Uma mãe dedica-se ao bebê sem que tenha certeza do futuro ou do reconhecimento do filho. Nas fases iniciais sua dedicação é muito intensa e torna-se complicado que uma mãe possa atender as necessidades do bebê caso esteja comprometida psicologicamente.

Busque orientação e conhecimento, que são essenciais na percepção e até mesmo na antecipação da existência potencial dessa enfermidade que acomete tantas famílias.

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Sobre temasempsicologia

Psicóloga Clínica e Organizacional.
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